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VENEZUELA - BRASIL - COLÔMBIA
E A OBRA PICTÓRICA DE “TEXTO EN ESPAÑOL”
24-05-2003
Quando eu morava em Caracas, no início dos anos 70 do século passado, vivia entre artistas e intelectuais.
A Venezuela estava no auge de sua opulência, construindo fantásticas rodovias, viadutos e vias expressas elevadas, enormes edifícios, novos e prósperos bairros para as classes ascendentes, embora também estivessem crescendo e subindo nos morros as favelas e os deserdados daquela imensa riqueza produzida pela exportação do petróleo.
Os investimentos em Educação e Cultura não eram desprezíveis. Pelo contrário, as universidades cresciam, havia escolas de todos os níveis para a população e bolsas para o aperfeiçoamento no Exterior. Centenas de professores de muitos países do continente e da Europa chegavam dentre os tantos imigrantes atraídos por tanta prosperidade. Eu era um dos beneficiados com uma bolsa de estudos na Universidad Central de Venezuela, na área de Bibliotecología.
Naquela época de fartura e desperdício eu escrevi o livro “Tu país está feliz”.
Eu alimentava um projeto secreto de publicar um poemário de versos eróticos e até pornográficos. Uma das motivações eram os desenhos de um daqueles artistas imigrantes — o colombiano José Campos Biscardi, ainda muito jovem, muito talentoso.
Fotografía realizada por Godofredo Romero
Campos— como o chamávamos na intimidade — era um dos meus amigos mais próximos e logo entregou-se ao projeto com bastante entusiasmo. Produziu vários desenhos de sua fase em que apareciam corpos humanos desnudos e congestionados em sugestivas nuvens, formando conjuntos impactantes. Ideias para os textos que eu começava a produzir.
Imagem de uma obra de Campos Bicardi, um dos exemplares na biblioteca de Antonio Miranda, na Chácara Irecê, em Goiás.
Textos e desenhos comportam imagens integradas ou seriam expostos separadamente. Ou seja: partimos da proposta de uma exposição que poderia dar razão para a publicação de um álbum de gravuras e poemas. Mas a vida mudou muito depois dos espetáculos “Tu país está feliz” e “Jesucristo astronauta”. O salário que eu recebia no sistema de bibliotecas era ínfimo, os rendimentos com o teatro eram altos e baixos, sem garantia de profissionalização, apesar do enorme sucesso de público, e até ameaças recebi de inimigos políticos dos espetáculos. Embora a Venezuela vivesse num regime democrático, ainda havia grupos radicais, alguma guerrilha urbana atuante e parte da intelectualidade cobrava dos artistas um engajamento “revolucionário” que estava longe de nossa visão de futuro.
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Bogotá, Colômbia, em 1972.
Parti para a Colômbia — onde montei “Calzoncillos con nubes” e depois para outros países do sul do continente e acabei retornando para o Brasil, definitivamente, em 1973 e todos os projetos com a Venezuela foram abandonados.
Voltei a encontrar-me com José Campos Biscardi nas diversas oportunidades em que regressava a Caracas, nos anos seguintes. Sempre ligado ao pessoal do Grupo Rajatabla, que havia montado “Tu país está feliz”, ele acabvra sabendo de minhas visitas e fazia questão de rever-me.
Nos anos 80 chegamos a programar uma exposição de suas obras na Galeria de Arte da ECT, quando minha grande amiga Lais Scuotto era a Assessora Filatélica da Empresa e o museu — criado por ela — ainda estava sob sua orientação. Á última hora perdemos contato com o artista e a exposição foi cancelada.
Em duas oportunidades, Campos presenteou-me algumas de suas gravuras mais recentes, de técnica mais aprimorada, mas que conservam traços de seu surrealismo tão original, ou seu onirismo, como queríamos rotular o seu estilo de trabalho. Por certo, ele já participava de uma mostra de artistas da Venezuela numa de nossas Bienais de São Paulo e sua trajetória artística vem tendo o reconhecimento público internacional que merece.
Só depois de completado o texto do livro “Perversos”, com que pretendo comemorar os 50 anos de minha produção literária, é que eu, quase por acidente, lembrei-me do projeto de publicar um livro com José Campos Biscardi.
Algumas das peças que ele produziu não cheguei a
recebê-las, outra tem texto (em espanhol) do projeto original e outras eu as emoldurei e as tenho, há quase duas décadas, nas paredes do salão da Chácara Irecê (em Goiás, no município de Cocalzinho) e, antes disso, já decoraram outros lugares, por onde eu andei.
Foi um feliz reencontro com a obra de Campos Biscardi, que agora parece assumir publicamente os dois sobrenomes paternos — na ordem hispânica em que o primeiro (Campos) é o do pai e o segundo (Biscardi) corresponde ao da mãe. Mas ele assina apenas “Campos”.
E mais feliz ainda a ideia de incluí-los na edição de “Perversos”. A capa será composta com um de seus desenhos que eu conservei numa carpeta de obras, por anos, em minha sala de trabalho na Universidade de Brasília, para montá-los algum dia. Neste momento, os amigos Elmira Simeão e Victor Tagore, que são especialistas em editoração eletrônica e no manuseio de programas de editoração eletrônica e no manuseio de programas de editoração gráfica, estão trabalhando na diagramação do texto (com ilustrações) e da capa, e certamente chegarão a um projeto visual muito profissional.
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